[Artigo Oficial] Impressões

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O druida limpou a boca com a manga de seu manto e acenou com a cabeça. Ainda pálido ao redor do nariz, ele começou a lançar seus feitiços de cura naquele corpo brutalmente machucado. Levou um bom tempo até que as feridas abertas lentamente começassem a se fechar. Pedaço por pedaço, os fragmentos ósseos quebrados voltaram à sua posição original e, com boa vontade, era possível reconhecer vagamente os primeiros traços faciais e detalhes novamente.

“Por que isso está demorando tanto?” Tibicus estava obviamente frustrado e andava impaciente de um lado para o outro. “Apresse-se!”

O druida fez o seu melhor, mas ele nunca havia tratado aquele tipo de ferimento antes. “Tibicus, eu não acho que esses ferimentos tenham sido causados por uma força humana”, ele inclinou a cabeça para Tibicus sem retirar as mãos que curavam Beefo.

“É claro que são! Não fale besteira. Esta aqui é uma pena do Emberwing dele. Enquanto aquele pássaro emplumado destruía metade da cidade, Fridolin esmagava seu rosto”, zombou Tibicus. “E, então, ele fugiu com o ouro e com o chapéu.”

“Você é mais burro do que eu pensava, Tibicus!”, uma voz rouca soou enfraquecida. Os três amigos voltaram os olhos para Beefo, que lentamente recuperava a consciência.

No mesmo instante, Tibicus pulou em seu arqui-inimigo e o agarrou pelo colarinho. “Vamos lá, fale comigo, seu verme imundo, onde está o meu chapéu? Onde está escondido?”

Beefo distorceu o rosto em dor, cuspindo um bocado de sangue nas mãos de Tibicus e, em seguida, deu um sorriso travesso. “Você quer seu chapéu de volta? Esqueça isso. Ele se foi. Para sempre. Eles o levaram, junto com Fridolin, aquele traidor.”

“Quem? Fala, quem levou ele? Onde está o meu…”

“O QUE ACONTECEU COM FRIDOLIN? Onde ele está?” Tabea interrompeu o cavaleiro aos berros.

Com seus olhos ainda focados em Tibicus, Beefo respondeu: “Parece que a mocinha está mostrando muito mais empatia e compaixão pelo amigo dela do que você, Tibicus.”

Inclinando a cabeça em direção a Tabea, ele prosseguiu: “Você está sempre preocupada com as pessoas ao seu redor, não é? Deixe-me dizer: ser uma boa alma o tempo todo também tem suas desvantagens, sabe? Contudo, graças ao seu coração ingênuo, nós pudemos nos infiltrar facilmente em seu timezinho de caça. HARHARHAR!”

Tibicus jogou Beefo de volta na terra. “O que você sabe? Responda-me, ou minha espada o julgará!”

Ofegante, Beefo tentou se sentar apoiando seu peso nos braços trêmulos. “Bem, não que isso fizesse alguma diferença, mas, por que eu deveria perder uma oportunidade de apontar sua própria estupidez? Então, deixe-me contar uma história sobre seu amigo Fridolin:

Quando conheci Fridolin, ele estava uma bagunça. Um órfão sem um teto sobre a cabeça e desgrenhado como um cão vadio e sarnento.

Uma criança perturbada e muda. Nenhuma palavra saía de seus lábios quando eu o acolhi, mas, em seus olhos, vi uma grande oportunidade. Ele tinha um dom.

Se você fosse capaz de enxergar por trás do olhar apavorado daquele menino, poderia sentir uma estranha aura de confiança e conforto irradiando de seus olhos. Em suma, ele era um diamante bruto e deveria ser um grande ganho para o meu negócio.

Eu cuidei de seu treinamento pessoalmente.

Comigo, ele aprendeu a lidar com diferentes armas, o movimento gracioso de um paladino e que magias utilizar em cada momento.

Minha maior prioridade, no entanto, era o treinamento do… vamos chamar de poder de persuasão dele. Já na adolescência, as damas se jogavam aos seus pés e ninguém podia lhe recusar um desejo quando ele exibia seu olhar inocente.

Eu havia criado o infiltrador perfeito.

Como você deve ter percebido a essa altura, não foi por acaso que ele conheceu Tabea um dia. Meu plano funcionou perfeitamente e essa ingênua se perdeu em seus olhos imediatamente. O resto foi mais fácil do que roubar doce de um bebê.

Suas habilidades com armas permitiram que ele se adaptasse rapidamente ao seu estilo de caça e fizeram ele se destacar como um parceiro confiável. Não demorou muito para que ele se tornasse um membro fundamental para o seu time. Era quase bom demais para ser verdade, ver com que rapidez ele ganhou a sua confiança.”

Escandalizada com essa história, Tabea tentou falar alguma coisa, mas, antes que pudesse, Beefo continuou:

“Na verdade, eu tinha planejado deixar Fridolin com vocês apenas por um curto período de tempo, apenas para usá-lo, para fazer uma emboscada, e lhes dar uma surra até dizer chega, o que permitiria que eu os lembrasse dessa derrota vergonhosa e de meu brilhantismo por toda a eternidade.

Mas então alguém fez uma oferta que eu não podia recusar.

Eu não sei como ele descobriu que Fridolin era meu agente disfarçado, mas eu não dava a mínima, tendo em vista a quantidade de ouro que ele estava disposto a pagar. De qualquer forma, quando selamos o acordo, a missão de Fridolin se estendeu de alguns meses até, bem, você sabe, vários anos.

Fridolin continuou desempenhando seu papel perfeitamente. Para ele, apenas o alvo da missão havia mudado. Sua nova ordem era roubar o chapéu de Ferumbras de você.”

“Vá em frente…” até agora, a história fazia sentido para Tibicus. Ele se sentiu estúpido e envergonhado, mas, no fim, o relato apenas confirmava suas suspeitas anteriores a respeito do paladino.

“No entanto, eu tinha subestimado sua personalidade, Tibicus. Seu velho teimoso, você foi o mais difícil de convencer. Demorou séculos até que você finalmente tivesse confiança suficiente para abrir sua sala de troféus para Fridolin.

A essa altura, já havíamos gasto quase todo o ouro que tínhamos recebido com antecedência para a missão, e é por isso que eu queria aproveitar a chance de ganhar um dinheiro extra.

Pedi-lhe que não retirasse quaisquer outros itens valiosos do seu quarto, uma vez que isso poderia fazer com que você suspeitasse, mas, com certeza, eu adorei aceitar cada uma de suas ofertas baratas de venda, enquanto me deliciava com sua dor e tristeza. Eu sei como você ama seus itens raros. HARHARHAR!”

Tibicus sentiu as palavras de Beefo acenderem sua raiva. “E, então, depois que ele entregou o chapéu para você, Fridolin voltou para ficar de olho em mim, fingindo que não sabia nada sobre o resgate?”

Beefo voltou a cuspir sangue:

“Você está quase correto. Na verdade, o chapéu deveria ter sido entregue ao nosso cliente na mesma noite em que ele o roubou, mas a tempestade acabou atrapalhando nossos planos. Até mesmo o Capitão Fearless se recusou a zarpar. Então o chapéu ficou aqui em Venore por um tempo, e Fridolin voltou a acompanhá-lo.

“Mas por que ele tentou roubar de mim nos yielothax?” Tibicus perguntou.

“Eu não sei. Fridolin já havia se comportado de modo estranho depois que ele entregou o chapéu para mim. Ele parecia perdido em pensamentos, fez perguntas, em vez de simplesmente obedecer minhas ordens, e queria saber quem era o cliente. Mas, como você certamente sabe, discrição é um grande trunfo neste tipo de negócio.

Tibicus tirou a espada da bainha e colocou a ponta na garganta de Beefo. “Eu sei, mas agora você me dirá quem está por trás disso!”

Beefo engoliu seco, uma única gota de sangue escorreu de suas narinas para a lâmina brilhante e caiu no chão.

Com um rosto pensativo, ele continuou a falar: “Você sabe… Nós estávamos prestes a cuidar de Fridolin, depois de ele ter ajudado seus dois amigos a escaparem, quando essas criaturas subiram à superfície. Eu já vinha me perguntando quanto tempo levaria para que ele reivindicasse o chapéu. Afinal de contas, tínhamos deixado passar o prazo combinado e ele não havia entrado em contato desde então.

Olhe ao seu redor, Tibicus, olhe para mim! Os capangas dele trouxeram o apocalipse. Eles incineraram meus homens e queimaram metade da minha cidade por causa de um prazo expirado. Acredite em mim, este homem não é flor que se cheire!”

Tibicus sentiu sua força diminuir e lentamente baixou sua espada ao chão. Arrepios passaram por seu corpo, além de suor e calafrios. Uma suspeita cruel se espalhou dentro dele. Será que seu arqui-inimigo foi realmente tão estúpido e ganancioso para se envolver em um acordo impensável com o próprio mal e a loucura? Ele tinha de saber a verdade.

Com a boca seca, virou-se para Beefo: “M.. me diga o nome dele…”