[Artigo Oficial] Acidente

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A resposta fez o seu sangue gelar. Ele já tinha um mau pressentimento, mas ouvir Beefo pronunciar aquele nome maldito despertou nele uma montanha-russa de medo, desespero e raiva. Ele realmente havia conseguido. Sua ganância insaciável o levou tão longe a ponto de fazer um pacto profano com esse monstro. Aquele louco cujos atos hediondos e cruelmente nefastos fizeram milhares de tibianos sofrerem por décadas.

“I-i-is-sso significa que…”, Tibicus gaguejou.

“Significa que seu preciso chapéu retornou para o seu antigo dono”, Beefo completou sua frase.

A confirmação do seu mais profundo temor silenciou Tibicus. Normalmente, ele teria erguido a sua espada e acabaria com aquela vida miserável com um único golpe. Em vez disso, ele permaneceu imóvel, olhando para os restos carbonizados da cidade e para o vazio dos pântanos venenosos. Seu olhar estava vazio. Vazio e inexpressivo.

Impulsionado pela abstinência mental de Tibicus, Beefo começou a se levantar: “Sabe, Tibicus… Fiz tudo por esse momento. Esse momento de absoluto prazer em arrancar esse seu sorriso arrogante e presunçoso do seu resto e presenciar sua derrota esmagadora… Seu bem mais precioso não está mais aqui. Ele se foi para sempre. E eu sou aquele que o tirou de você. Você está acabado, Tibicus. Eu venci. Admita!”

Tibicus respirou fundo.

“Você venceu e ainda assim perdeu tudo”, Tibicus suspirou.

“Olhe ao seu redor, Beefo… Veja o resultado do seu patético jogo de poder! Estamos de pé sobre as cinzas dos seus capangas. Você também quase acabou sendo vitimado. E o mais irônico é que fomos nós que te livramos das garras da morte.

Que grande líder você é…

Estou certo de que os poucos sobreviventes deste massacre ficarão muito gratos quando se derem conta de que foi você quem os guiou conscientemente para o matadouro.

É você quem está acabado, Beefo! Seu antigo império está em ruínas. Toda essa cidade não passa de um enorme cinzeiro agora. Mas, claro, continue,  seu ego deve estar mais que inflado agora, então, saboreie este momento tanto quanto puder, você merece!”

Ele olhou com desprezo para o seu adversário, que apenas olhou de volta sem dizer nenhuma palavra.

“Você sabe… você sabe se Fridolin sobreviveu?”, Tabea questionou após um silêncio ensurdecedor.

Beefo respirou e sacudiu a cabeça. “Você é uma garota muito especial, sabia? Depois de tudo que eu te disse sobre esse cara, você ainda quer saber se ele sobreviveu? Você é efetivamente um caso perdido. No entanto, a última vez que o avistei, seu garotinho estava bem vivo. Mas quem sabe o que pode ter acontecido com ele durante esse tempo. Talvez aquele punhado de cinzas seja ele… Harharhar!”

“O que você quer dizer?”, perguntou Tabea, extremamente furiosa, enquanto Emilio chutava Beefo bem no estômago pelo seu comentário desrespeitoso.

“Nada, não faço ideia de onde ele esteja”, ele murmurou. “Quando entreguei o chapéu, dois daqueles demônios me deram uma surra. Eles me rasgaram como um saco de papel, deixaram-me aqui para morrer e levaram o chapéu com eles. Seus companheiros, entretanto, ficaram e causaram todo esse caos. Eles mataram os meus homens e devastaram a minha cidade, enquanto eu estava caído aqui, tentando manter minhas tripas dentro do meu corpo. Fridolin, aquele maldito, deve ter se aproveitado do caos para se libertar de suas correntes.

Eu estava cercado por fogo e fumaça e minha visão estava muito limitada. Eu podia reconhecer vagamente algumas sombras e o ar estava preenchido com os gritos de agonia dos meus homens e com os rugidos exultantes dos demônios. Mas, em meio a todo aquele tumulto, fui capaz de ouvir claramente a sua voz pronunciar utito tempo san.

Como eu disse, as chamas banhavam as ruas em uma luz reluzente e eu podia ver apenas os contornos maciços dessas criaturas recuando sob um mar de flechas que choviam sobre elas e que faziam-nas cambalear. Fridolin pode ser um maldito traidor, mas aquele cara sabe usar o seu arco. Acredite em mim, foi um prazer ver aquelas pontas de flechas perfurando a pele encouraçada dos demônios.”

“E o que aconteceu depois?”

“Eu não tenho ideia e estou me repetindo aqui. Tudo o que eu podia ver eram contornos indefinidos batalhando entre as chamas ardentes. A julgar pelos gritos e uivos dos demônios, cada uma das flechas encontrou seu alvo. Contudo, minha grande perda de sangue escureceu a minha visão cada vez mais até que eu finalmente perdesse a consciência.

Depois lembro-me apenas de ter visto a sua cara idiota, Tibicus.”

“Onde exatamente eles lutaram?”, perguntou Tibicus, ignorando o insulto trivial.

“Lá!”, Beefo apontou o dedo para o norte.

Tibicus e seus dois companheiros caminharam cuidadosamente até o local, sempre em busca de pistas sobre o paradeiro de Fridolin.

“Se bem me lembro, este deve ser o Magic Bazar, ou pelo menos o que restou dele”, disse Emilio, enquanto eles estavam sobre aas ruínas da Mystic Lane. Os restos soterrados de muros danificados estavam repletos de manchas fumegantes cuja consistência gelatinosa lembrava lava derretida.

“Isso é sangue de demônio”, Tabea averiguou. “Este tem que ser o local mencionado por Beefo”.

Quanto mais eles adentravam as ruínas, tanto mais sangue de demônio encontravam pelas paredes. Eles continuaram até alcançar o centro da antiga loja de magia, onde encontraram três pontos que estavam escassamente cobertos com flocos de cinzas. Numerosas fissuras podiam ser vistas no solo exposto.

“Eu já vi isso antes…”, Tibicus sussurrou, enquanto seguia as linhas finas com os dedos.

“Demônios rompem a superfície com suas garras quando emergem das profundezas. Apesar de todo o caos e destruição que costumam trazer à nossa terra, eles são meticulosos ao selarem esses abismos quando retornam ao seu mundo de chamas. Essas rachaduras aparecem somente quando algo que não pertence ao abismo é levado para lá.”

“Você quer dizer que…”, Tabea hesitou.

“Um ser humano foi levado para lá. Os tibianos não têm lugar no mundo dos demônios. Sua presença perturba o equilíbrio mágico, deixando essas estreitas fissuras para trás.”

“Isso significa que Fridolin está…”, Tabea negou-se a dizer o óbvio.

“… provavelmente no mundo dos demônios”, Tibicus completou seu pensamento.

“E-e-e agora? Como vamos tirá-lo de lá?”

“Não há muito que possamos fazer! Acessar o mundo dos demônios é impossível para seres mortais como nós”.

“M-mas deve haver algo que possamos fazer!”

“Somente os demônios mais poderosos são capazes de atravessar essa barreira com um corpo estranho. Estamos com as mãos atadas, Tabea.”

Aos prantos, a jovem feiticeira desmoronou. Tibicus se aproximou dela e colocou a mão em seu ombro. “Sinto muito, sei o quanto ele era importante para você.”